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O Teólogo

R.C. Sproul

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Pensadores do mundo antigo procuraram medir as profundezas da realidade última. Com aquela busca pela realidade última nasceu a disciplina conhecida como filosofia. Alguns filósofos focaram em um aspecto particular da filosofia chamado metafísica (o ser fundamental). Outros focaram sua atenção na epistemologia (a ciência do conhecimento). Ainda outros deram ênfase em sua investigação aos princípios básicos e elementares da ética (o estudo do bom e do certo). E outros focaram nos fundamentos definitivos da estética (o estudo do belo). Mas um filósofo despontou como alguém profundamente envolvido no estudo de todos estes assuntos, dentre outros. Seu nome era Aristóteles. Como a investigação filosófica de Aristóteles era tão inclusiva a ponto de cercar todos os principais interesses da filosofia, ele obteve para si o epíteto supremo, isto é, “O Filósofo”. Entre estudantes de filosofia, se, de passagem, for mencionado o título “O Filósofo”, todos entendem que aquele título só pode ser uma referência a uma única pessoa: Aristóteles.

De forma semelhante, historicamente, o estudo da teologia trouxe à superfície pensadores e eruditos fora de série. Alguns são conhecidos pela sua habilidade específica em criar uma síntese entre a teologia e a filosofia secular. Agostinho, por exemplo, era conhecido pela sua habilidade de tomar preceitos da filosofia de Platão e misturá-los com a teologia bíblica. Muito da teologia de Agostinho era, portanto, de um tipo filosófico. O mesmo poderia ser dito, até certo ponto, sobre Tomás de Aquino que nos deu uma síntese semelhante entre filosofia aristotélica e pensamento cristão. Entre os reformadores magisteriais do século dezesseis percebemos que Lutero, sendo um brilhante estudante de línguas, trouxe à mesa da teolologia uma habilidade fora do comum para prover vinhetas de lampejo em questões particulares da verdade. Mas Lutero não era por natureza um sistematizador e, por isso, ele não pôde tornar-se o teólogo dos teólogos. Ele nunca desenvolveu uma teologia sistemática abrangente para a instrução da igreja. Essa tarefa no século dezesseis foi deixada para o gênio do teólogo genebrino João Calvino.

"Calvino trouxe ao estudo da teologia uma paixão pela verdade bíblica e uma compreensão coerente da Palavra de Deus. De todos os pensadores do século dezesseis, Calvino destacou-se por sua habilidade em prover uma compreensão teológica sistemática da verdade cristã."

Calvino trouxe ao estudo da teologia uma paixão pela verdade bíblica e uma compreensão coerente da Palavra de Deus. De todos os pensadores do século dezesseis, Calvino destacou-se por sua habilidade em prover uma compreensão teológica sistemática da verdade cristã. Sua magnum opus, As Institutas da Religião Cristã, permanece até hoje como um trabalho gigantesco no campo da teologia sistemática. Lutero não viveu tempo o bastante para reconhecer todo o impacto da obra de Calvino, entretanto ele viu que Calvino tornar-se-ia uma figura de altíssima estatura. Coube a outro, que conheceu Calvino e sua obra mais extensamente, Philip Melancthon, assistente de Lutero e ele mesmo um impressionante erudito, dar a Calvino a alcunha de “O Teólogo”. Portanto, se alguém mencionar “o Filósofo”, entenderemos estar referindo-se a Aristóteles. Por outro lado, se mencionar “o Teólogo”, os herdeiros da Reforma pensarão exclusivamente em João Calvino.

Em nossos dias parece haver uma batalha contínua entre partidários da teologia sistemática e defensores da teologia bíblica. Vivemos um tempo de antipatia sem precedente contra a racionalidade e a lógica. Onde a teologia sistemática reinava suprema em seminários teológicos, ela praticamente desapareceu, exilada à periferia dos estudos acadêmicos. Essa antipatia contra a racionalidade e a lógica encontra seu extremo na alergia moderna contra a teologia sistemática, não havendo nada para preencher o seu lugar a não ser a expansão da teologia bíblica. Há uma possível tendência na teologia bíblica em interpretar a Bíblia atomisticamente sem uma preocupação com coerência e unidade. Esta dicotomia entre teologia bíblica e teologia sistemática é um exemplo clássico da falácia do falso dilema, às vezes chamada de falácia “ou-ou”. Se olharmos para João Calvino, veremos um erudito cujo domínio do conteúdo das Escrituras foi inigualável. Calvino tinha uma profunda paixão pela Bíblia, bem como um conhecimento monumental da Bíblia e ainda assim ele é conhecido como um teólogo sistemático. Ele não era um teólogo sistemático no sentido de que ele traz algum sistema filosófico extra-bíblico e o força sobre a Bíblia. Para ele, um sistema não era como uma preconcebida cama de Procrusto* com a qual a Bíblia tinha que ser forçada a se conformar. Pelo contrário, o sistema de doutrina de Calvino era o resultado da sua tentativa de achar a substância coerente da própria Bíblia. Ou seja, Calvino trabalhou o sistema que está dentro da Bíblia e não um sistema que é imposto às Escrituras. Calvino tinha certeza de que a Palavra de Deus é coerente e que Deus não fala por meio de contradições ou declarações ilógicas. Já foi dito uma porção de vezes que a consistência é o diabrete das mentes pequenas. Se isso é, de fato, verdade, então teríamos que chegar à conclusão de que a menor mente no universo é a mente de Deus, porque Deus, em Seu pensamento, é completamente consistente e coerente. Foi nessa avaliação da natureza de Deus que Calvino buscou apaixonadamente apresentar a unidade da Palavra de Deus. Nesse sentido, ele deu uma contribuição magistral à história do pensamento cristão. Algumas pessoas vêem o calvinismo, que carrega o nome de João Calvino, como uma odiosa distorção da Palavra de Deus. Aqueles que apreciam o compromisso de Calvino com a verdade bíblica vêem o calvinismo como um “apelido para o cristianismo bíblico”, como disse Spurgeon.

"Algumas pessoas vêem o calvinismo, que carrega o nome de João Calvino, como uma odiosa distorção da Palavra de Deus. Aqueles que apreciam o compromisso de Calvino com a verdade bíblica vêem o calvinismo como um 'apelido para o cristianismo bíblico', como disse Spurgeon."

Calvino, em um debate, poderia utilizar o seu enciclopédico conhecimento de passagens bíblicas, como também sua habilidade para citar amplamente pensadores antigos como Agostinho e Cícero. Mas acima de tudo, Calvino buscou ser fiel à Palavra de Deus. Ele foi o teólogo bíblico por excelência que foi ao mesmo tempo um teólogo sistemático singularmente talentoso.

Nós temos uma grande dívida com este homem. Ele é um presente de Deus à igreja, não só para o século dezesseis mas para todos os tempos. Portanto, nós nos unimos às multidões que estão celebrando o 500º aniversário de João Calvino no ano de 2009.



* Nota do Tradutor: Procusto era um bandido que vivia na serra de Elêusis. Em sua casa, ele tinha uma cama de ferro, que tinha seu exato tamanho, para a qual convidava todos os viajantes para se deitarem. Se os hóspedes fossem demasiados altos, ele amputava o excesso de comprimento para ajustá-los à cama, os que tinham com pequena estatura, eram esticados até atingirem o comprimento suficiente. Ninguém sobrevivia, pois nunca uma vítima se ajustava exatamente ao tamanho da cama.

Continuou seu reinado de terror até que foi capturado pelo herói ateniense Teseu que, em sua última aventura, prendeu Procusto lateralmente em sua própria cama e cortou-lhe a cabeça e os pés, aplicando-lhe o mesmo suplício que inflingia aos seus hóspedes.

Fonte: Publicado na revista Tabletalk do Ligonier Ministries

Tradução: Juliano Heyse


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