Bom Caminho - em busca das veredas antigas

Maurice Roberts - foto

Mais Do Que Um Sonho

Maurice Roberts

Eu fui transportado em meu sonho aos dias antigos, e me encontrei do lado de fora de um templo de pedras rústicas e rodeado por um cemitério. Era hora do culto, pois, enquanto me encontrava à porta da igreja, o povo simples daquele lugar estava se encaminhando para a casa de Deus, chamados por um sino. Homens e mulheres idosos, outros no vigor da vida acompanhados de seus filhos, caminhavam quietamente em grupos. A roupa modesta que usavam e as conversas contidas mostravam o respeito que tinham pelo dia do Senhor e demonstravam o fato de que estavam preparando suas mentes para o culto a Deus, antes de entrarem na igreja.

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Quando a igreja ficou cheia, achei-me, no meu sonho, sentado no interior dela sem ser observado, num assento próximo da frente. Nenhum ornamento desfigurava o templo. Não vi figuras em vitrais, nem cruz, nem altar, nem símbolos supersticiosos. Os bancos de madeira estavam arrumados de modo simples, as paredes eram lisas, o madeirame do forro forte e rústico, como os próprios adoradores. A galeria, na parte de trás, bem como o andar térreo estavam cheios de pessoas esperando silenciosamente pelo início do culto. Subitamente o sino cessou, e quase que imediatamente uma porta lateral se abriu e um grupo de veneráveis anciãos encaminharam-se para tomar seus lugares nos assentos abaixo do púlpito. Depois de todos veio o ministro. Era um homem idoso, vestido de preto, com cabelos brancos. Suas costas eram um pouco encurvadas e seu andar lento e irregular. Os olhos de todos estavam sobre ele, enquanto subia os degraus do púlpito e abria o livro a partir do qual seriam cantados louvores a Deus por toda a congregação. Ao observar o idoso pregador, vi que havia um misto de severidade e brandura escritos nas linhas do seu rosto. Ele abriu o pequeno livro de cânticos espirituais com dedos que pareciam tocar cada página familiar afetuosamente. Eu observei depois, quando ele passou a ler o Livro grande diante dele sobre uma almofada, no púlpito, que ele folheava cada página com amor, como um homem faria ao folhear as páginas de um volume feito de ouro.

"A roupa modesta que usavam e as conversas contidas mostravam o respeito que tinham pelo dia do Senhor e demonstravam o fato de que estavam preparando suas mentes para o culto a Deus, antes de entrarem na igreja."

Quando o hino selecionado foi anunciado e lido parcialmente pelo pregador, a congregação começou a cantar os louvores ao Deus que se assenta acima no Seu trono. No princípio soaram como vozes humanas. Mas, à medida que o salmodiar sagrado prosseguia, percebi que uma glória começou a encher a casa. No meu sonho, eu me lembrei de olhar para cima à medida que o cântico cessava, e vi o que tenho certeza não estava ali antes - seres resplandecentes acima das cabeças dos adoradores e, mais alto ainda, como se fosse uma grande sombra do próprio Trono. Quando vi isto, senti um temor e uma calma reverência que não conhecia. Estou certo que outros sentiram também o mesmo, porque notei uma transformação vindo sobre as pessoas, especialmente sobre os mais idosos, os quais, sem dúvida, já haviam experimentado estas coisas no passado. Diversos esconderam suas faces nas mãos. Mas, mesmo assim, vi que não podiam esconder as lágrimas em seus olhos. Era uma ocasião santa.

A seguir, o pregador orou. Suas palavras não eram afetadas, mas simples, naturais e cheias de pensamentos das Escrituras. Ele dirigiu-se a Deus como alguém que está acostumado a falar com o Eterno. Cada sentença medida carregava consigo alguns pensamentos elevados da grandeza divina, como se ele desfrutasse do próprio pensamento de Deus, no limite extremo do seu poder. Cada petição subseqüente suplicava uma grande medida de graça, perdão e auxílio para todo o seu povo. No meu sonho, eu vislumbrei a queda de poderes satânicos à medida que ele orava, e pensei que vi, em visão, o alvorecer daquele brilhante dia quando a igreja de Cristo se completar e vier o estado de glória. Seu Amém foi tão sólido e ressoante que imaginei os céus distantes trovejando com o seu eco de aprovação. O coração do povo também tinha estado naquela oração, pois percebi que não poucos dentre eles sentaram-se com a beleza da santidade nas suas faces.

Quando as leituras que o pregador fez do grande livro foram terminadas e os primeiros hinos concluídos, vi que ele se levantou para pregar o seu sermão e que o povo se preparou para ouvi-lo como quem está para ouvir um mensageiro de Deus. Um solene senso de urgência veio sobre toda a congregação, quando ele anunciou o seu texto e prosseguiu para extrair coisas velhas e novas das Escrituras. Eu mesmo ouvi a voz daquele homem tão atentamente como se ele fosse um anjo, pois ele parecia brilhar à medida que se aquecia com o seu tema. De fato, sua figura frágil tornou-se forte novamente à proporção que tratava de seu assunto, e seus cabelos encanecidos brilhavam sobre sua cabeça enquanto declarava a mensagem do seu mestre. Decorrida meia hora do seu sermão, o pregador fez uma pausa para olhar ao seu redor, especialmente para os jovens, e teve que tirar o lenço porque seus olhos estavam agora cheios de lágrimas de piedade e amor paternal. Eu imaginei que seu coração se partiria com o receio de que mesmo um só de seus ouvintes falhasse e não viesse a encontrá-lo no reino dos céus acima.

"Quanto a mim, não sabia se tinha estado no corpo ou fora do corpo. Mas meu coração queimava, quando me levantei completamente despercebido, para sair após todos. Eu tentei, quando saí, descobrir em que igreja eu tinha estado assim sentado e cultuando."

Foi neste momento que minha atenção se prendeu em um jovem sentado não longe de mim. Eu o havia notado antes, porque ele parecia estar fora do seu ambiente, naquele lugar. Ele usava uma roupa fina e obviamente sentia orgulho da sua aparência. De tempos em tempos olhava para o seu relógio, como alguém ansioso para sair daquele santuário, de volta ao mundo. Eu o tinha visto pelo canto dos meus olhos, com pena. Mas, não tinha prestado especial atenção nele até agora, quando o pregador começou a chorar pelas almas daqueles que estavam descuidados. Então uma extraordinária transformação veio sobre o rapaz. Como quando uma centelha da fornalha de um ferreiro voa a esmo e toca fogo em um monte de palha seca, assim algumas sentenças do pregador devem ter queimado o coração desse jovem com um misterioso poder. Num instante a fisionomia do rapaz se transformou. Ele foi atingido (preso) pelo pregador. Ele esqueceu-se de si mesmo e de todo este mundo. Ao invés, viu a si mesmo pendurado sobre um lago de fogo eterno e sentiu os primeiros tormentos (mordidas) do mormaço que devorará para sempre as consciências dos ímpios no outro mundo.

Quando o sermão terminou, este jovem levantou sua cabeça dentre os seus joelhos, pois por todo o resto do tempo, desde que começou nele a mudança, ele a tinha escondida, o mais baixo que podia. Quando lhe vi o rosto novamente, pareceu-me a face de um novo homem. Eu nunca vi em toda a minha vida uma expressão mais pura (singela) em nenhum homem, e compreendi que ele tinha sentido a paz que sentem todos aqueles que habitam sob a sombra do Trono.

Terminado o culto com a bênção, o venerável pregador desceu lentamente do púlpito e os anciãos levantaram-se em atitude de respeito, e cada homem apertou-lhe a mão, antes que ele retornasse à sua sala. E assim, o povo saiu quietamente, alguns com um brilho celestial em suas faces, e outros com suas cabeças bem baixas, por temor de ofender o majestoso Ser, em cuja casa eles tinham tido o privilégio de sentar.

Quanto a mim, não sabia se tinha estado no corpo ou fora do corpo. Mas meu coração queimava, quando me levantei completamente despercebido, para sair após todos. Eu tentei, quando saí, descobrir em que igreja eu tinha estado assim sentado e cultuando. Mas não pude descobrir. Eu, entretanto supus que deve ter sido em algum lugar entre os puritanos, anos atrás, ou na Nova Inglaterra entre os antigos peregrinos. Ou foi no País de Gales de outrora... ou em alguma vila escocesa? Eu particularmente penso que não importa onde estive, porque tinha sido um encontro com coisas eternas. Eu recordo que, quando saí, o céu estava azul e o sol estava quente sobre mim, e quando pensei sobre Deus, chorei audivelmente por pura felicidade.

Pois bem, tive este sonho há tempos atrás e nunca pensei que fosse contá-lo a homem algum, mas o conto agora porque tive o sonho novamente, conforme passo a explicar agora.

"Mas, enquanto eu aguardava o começo do culto, vi um homem jovem leviano e trivial subir os degraus do púlpito e sua face esboçava um sorriso tolo que contrastava de modo incompatível com a face do idoso pregador que eu havia visto no meu sonho anterior."

Neste meu segundo sonho, encontrei-me do lado de fora da igreja que tinha visto antes. Era um domingo, e lá vinha pela rua, agora bem pavimentada e muito larga, o mesmo jovem cuja transformação espiritual eu acabei de descrever. Mas agora, o jovem havia se tomado velho e lento. Ele andava com dificuldade com uma bengala, e na sua face havia algo semelhante a do venerável pregador por meio de cujo sermão ele veio a amar as coisas celestiais. Ele parou no portão da igreja e tirou uma chave para entrar no templo onde seus pais outrora adoraram. Não havia mais multidões para encher a casa de oração. Negligência e penúria podiam ser vistas por todo lado. Para dizer a verdade, ele era o único homem vivo que tinha cuidado com o lugar, onde outrora grandes cultos haviam sido oferecidos. Mas guerras e caprichos humanos haviam transformado a sociedade, desde a sua juventude. A morte havia levado seus antepassados para o túmulo. Sozinho, este idoso santo toda semana abria a casa de culto por amor a Deus e aos homens. No meu sonho eu segui o homem até dentro e o ouvi suspirar ao olhar ao redor e sussurrar como que para aqueles que outrora haviam sido co-adoradores com ele: Icabod1. Nem vinte pessoas estavam reunidas para o culto, que era realizado naquele lugar uma vez por mês, o que estava acontecendo naquele dia. Quanto a mim, achei-me sentado onde havia estado sentado no meu primeiro sonho, e foi tão diferente que eu podia ter chorado até que meus olhos se turvassem. Mas, enquanto eu aguardava o começo do culto, vi um homem jovem leviano e trivial subir os degraus do púlpito e sua face esboçava um sorriso tolo que contrastava de modo incompatível com a face do idoso pregador que eu havia visto no meu sonho anterior. Nenhum ser resplandecente veio sobre nós enquanto cantávamos, nem sentimos a sombra do Trono sobre nós, enquanto ouvíamos este novo tipo de sermão. Tudo o que posso lembrar é que havia pouco mais no sermão do que comentários embaçados e umas poucas observações não preparadas que suscitaram um riso momentâneo. Uns poucos, de fato gargalharam, especialmente as pessoas mais ignorantes presentes. Mas eu observei que aquele riso apenas produziu um olhar doloroso na face do antigo ancião. Ele entretanto escondeu isto da melhor maneira que pôde. Ele esperava o melhor de tudo, e claramente pensava que não deveria parecer indelicado ao jovem, o qual, ele dizia freqüentemente a si mesmo, nunca conhecera as glórias dos dias passados. Depois que o culto terminou, vi que o idoso santo falou delicadamente com cada um, especialmente com as crianças. Para minha grande surpresa e prazer, observei que ele não falou severamente ao novato pregador, mas tomou, de dentro de sua pasta, um volume escolhido de teologia, o qual pediu que o jovem homem delicadamente recebesse como um presente e insistiu com ele sobre a importância da oração em secreto.

Não havendo ninguém mais para fechar o templo, exceto o velho homem, ele aguardou até que o pequeno grupo de pessoas tivesse ido embora, e então, com tanto cuidado quanto se se tratasse de um palácio, ele verificou cada porta e finalmente trancou o pesado portão de ferro. Ele não foi, como eu esperava, direto para casa, mas encaminhou-se pelas antigas lápides do cemitério até chegar ao monumento que marcava o lugar onde seu próprio amado ministro tinha sido colocado para descansar, muitos anos atrás. Ali, ele tirou seu chapéu, e apoiou sua bengala sobre a pedra. Com dificuldade colocou-se de joelhos, e percebi que ele fazia isto freqüentemente porque a grama daquele lugar estava gasta devido ao fato de ajoelhar-se constantemente ali, em oração. Sobre sua cabeça o céu estava azul e o sol brilhava quente e intensamente.

"Quando este homem levantou sua alma, eu o ouvi clamar ao Deus de seus pais. Uma frase ele repetia como se seu ardente coração fosse partir: "Volta, volta, volta. Oh, quanto tempo?" Ele lutou na sua oração, como se lutasse com um anjo."

Eu gostaria que me fosse permitido dizer-lhes tudo o que eu ouvi e tudo o que senti quando o idoso santo derramava sua oração ao Eterno, pois ouvi cada palavra em meu sonho, mas não posso repeti-las todas agora. Mas, pelo menos isto eu preciso dizer. Quando este homem levantou sua alma, eu o ouvi clamar ao Deus de seus pais. Uma frase ele repetia como se seu ardente coração fosse partir: "Volta, volta, volta. Oh, quanto tempo?" Ele lutou na sua oração, como se lutasse com um anjo. Na verdade, eu realmente pensei que um anjo ia aparecer, tão alto ele clamava e tão profundamente gemia.

Terminada sua oração, o idoso homem levantou-se sem firmeza sobre os seus pés e procurou por sua bengala e o seu chapéu para ir para casa. E quando ele se virou para ir, eu ouvi e vi algo que, tenho certeza, ele não percebeu. Mas eu, estando em meu sonho, tanto vi como ouvi claramente. Nos distantes céus surgiu o suave rufar de trovões e no longínquo horizonte apareceu novamente a presença dos seres resplandecentes que eu tinha visto no meu primeiro sonho. Então - espantoso de relatar - por toda aquela terra apareceu a sombra do Trono dAquele que vive para sempre e que responde às orações.

Se o velho homem soube ou não, eu não posso dizer, mas eu vi que haveria um novo alvorecer
para aquela igreja, por tanto tempo negligenciada e decadente. Enquanto olhava para o horizonte longínquo, tive um vislumbre da glória que estava por vir no sábio tempo de Deus. E quando acordei, eu vi que era mais do que um sonho.



[1] "Foi-se a glória". Nome (hebraico) que a nora do sacerdote Eli deu ao filho que nasceu, quando ela soube que a arca da aliança havia sido tomada de Silo pelos filisteus (1 Sm 4:21). Nota do tradutor.

Fonte:Extraído do Jornal Os Puritanos - Edição de Setembro/Outubro de 1994



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