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Incredulidade nos Filhos de um Presbítero - Exegese

Justin Taylor

e que governe bem a própria casa, criando os filhos sob disciplina, com todo o respeito (pois, se alguém não sabe governar a própria casa, como cuidará da igreja de Deus?);
1 Timóteo 3:4-5

em cada cidade, constituísses presbíteros, conforme te prescrevi: alguém que seja irrepreensível, marido de uma só mulher, que tenha filhos crentes que não são acusados de dissolução, nem são insubordinados.
Tito 1:6

filhos do presbítero

Pode um homem ter filhos que são incrédulos e ainda assim ser designado ou permanecer como presbítero? Primeira Timóteo 3:4-5 e Tito 1:6 provocam a pergunta.

Há duas interpretações principais. Douglas Wilson resume a primeira visão de forma bastante sucinta: "se os filhos de um homem se afastarem da fé (doutrinária ou moralmente), ele está, naquele ponto, desqualificado para o ministério formal na igreja."[1] Alexander Strauch sugere a segunda opção interpretativa: "O contraste não é feito entre filhos crentes e não crentes, mas entre filhos obedientes, respeitosos e filhos desobedientes, descontrolados." O que está em jogo, Strauch sugere, é o "comportamento dos filhos, não o seu estado eterno."[2]

 

LIDERANÇA FIEL NA IGREJA E NO LAR

A lógica básica de Paulo, especialmente em 1 Timóteo 3, está bastante clara. A pergunta retórica na segunda metade do versículo 5 ("pois, se alguém não sabe governar a própria casa, como cuidará da igreja de Deus? ") baseia-se logicamente na insistência dele em uma casa ordenada no versículo 4 ("e que governe bem a própria casa, criando os filhos sob disciplina, com todo o respeito"). Porque "a casa de um crente deveria ser como uma pequena igreja", [3] o resultado é que "aquele que não consegue obter de seus filhos qualquer reverência ou sujeição ... dificilmente poderá conter as pessoas pela rédea da disciplina."[4] Isto significa que a forma como um presbítero ou um presbítero em potencial, administra e ordena a sua casa é de extrema importância em determinar se ele está qualificado para o ofício. John Stott resume o assunto cuidadosamente: "O pastor casado é chamado à liderança em duas famílias, a dele e a de Deus, e a primeira é campo de treinamento para a segunda."[5] (Cf. Mateus 25:14-30 - aquele que é fiel no pouco será fiel no muito.[6]) A análise acima é bastante não-controversa entre os exegetas. Porém, discordâncias aparecem quando investigamos mais profundamente a natureza dessa casa bem ordenada.

 

OS FILHOS DE UM PRESBÍTERO DEVEM SER CRENTES?

A questão mais controversa que cerca estes versículos é se Paulo está dizendo que os filhos de um presbítero precisam ser crentes, ou apenas que eles devem ser fiéis, submissos e obedientes.

O termo pistas pode significar tanto "crente" quanto "fiel" nas Epístolas Pastorais (para o primeiro como um substantivo, veja 1 Tm 6:2; para o segundo com um substantivo, veja 2 Tm 2:2). Então, só o estudo da palavra não serve para solucionar a questão.

"A questão mais controversa que cerca estes versículos é se Paulo está dizendo que os filhos de um presbítero precisam ser crentes, ou apenas que eles devem ser fiéis, submissos e obedientes."

Porém, eu quero sugerir que a solução para esta pergunta pode ser encontrada fazendo o paralelo entre Tito 1:6 e 1 Timóteo 3:4. Nós podemos ter uma razoável certeza de que tekna echonta en hupotagç ("tendo os filhos em controle / submissão / obediência"; 1 Tm 3:4) é virtualmente sinônimo com tekna echôn pista ("tendo filhos crentes / fiéis"; Tito 1:6).[7] Em outras palavras, ter filhos pista significa ter filhos en hupotagç. Isto significaria que a parte final de Tito 1:6 ("que não são acusados de dissolução, nem são insubordinados") é uma descrição do que significa pista.

Com isso em mente, aqui vão cinco razões adicionais que me inclinam a acreditar que Paulo está se referindo à submissão e obediência dos filhos de um presbítero, e não à salvação deles.

Primeiro, a questão fundamental de 1 Timóteo 3:5 conecta explicitamente as qualificações do presbítero com suas habilidades administrativas no versículo 4. Comportamento regularmente obediente não requer intervenção milagrosa; até mesmo um bom técnico de laboratório pode fazer um rato seguir um certo caminho se investir suficiente planejamento e premeditação. Já a fé salvífica não pode ser produzida como resultado de um bom trabalho doméstico. Enquanto um lar piedoso freqüentemente conduz à fé, ele não a produz. Se nós insistirmos que a salvação de um filho fundamentalmente está ligada às habilidades administrativas do pai, nós inadvertidamente atribuímos um papel não-bíblico à ação humana. Este é claramente o caso com uma aplicação levantada por Stott: "Uma extensão do mesmo princípio pode ser que não se pode esperar que o presbítero-bispo ganhe estranhos para Cristo se ele não ganha aqueles que estão mais expostos à influência dele, seus próprios filhos."[8] O que significa isso? Se você é um bom gerente da sua casa, então pode-se esperar que incrédulos venham ao Senhor por meio do seu ministério?

Segundo, até mesmo os melhores gerentes pastorais têm incrédulos dentro da igreja deles ou debaixo da sua esfera de influência (cf. Gl 1:6!). A conseqüência lógica disso seria que alguém pode administrar bem a casa maior (a sua igreja), embora nem todos ali sejam crentes. Se for assim, então parece que pode-se administrar bem a casa menor (a sua família), ainda que nem todos dentro dela sejam crentes.

"Requerer que os filhos tenham fé salvífica genuína é requerer responsabilidade pessoal pela salvação de outro, algo que não vejo ensinado na Bíblia."

Terceiro, insistir que ter filhos crentes é um pré-requisito para o presbiterato leva a algumas perguntas incômodas. O que fazer com um presbítero que tem vários filhos crentes, mas um que não é? Se a maioria dos filhos dele são crentes, ele não é um bom gerente da sua casa? Ou, aquele único filho descrente põe em xeque a sua habilidade administrativa geral? Se põe, então por que qualquer dos seus filhos tornou-se crente? Wilson escreve: ". . . um homem poderia decidir (e, eu penso que deveria decidir) retirar-se se um de seus seis filhos negar a fé. Mas se outro pastor no presbitério dele, na mesma situação, não decidir fazer assim, e os seus outros cinco filhos forem piedosos, só um encrenqueiro expressaria sua discordância em meio a uma grande briga na igreja."[9] Mas isso parece incoerente; porque se Paulo verdadeiramente ensina que filhos descrentes automaticamente desqualificam um homem para o presbiterato, então a pureza do presbitério vale sim uma briga.

Quarto, todas as exigências para o presbiterato que são listadas nessa passagem (ser casado uma vez, ser temperante, sensato, respeitável, hospitaleiro, bom professor, não ser um bêbado, não ser um amante do dinheiro, e não ser um recém convertido) são ações de responsabilidade pessoal. É de se esperar que a exigência que considera os filhos esteja na mesma categoria. Requerer que os filhos tenham fé salvífica genuína é requerer responsabilidade pessoal pela salvação de outro, algo que não vejo ensinado na Bíblia.

 

CONCLUSÃO

Portanto, creio que 1 Timóteo 3 e Tito 1 estão se referindo à submissão geral e ao comportamento dos filhos do presbítero. Deus projetou o universo de tal forma que o papel disciplinador, de modelo, de autoridade e de líder-servo dos pais geralmente tem um profundo efeito no comportamento dos filhos. Paulo não especifica o que isso significa em todo caso, nem especifica cada detalhe do que desqualificaria um presbítero. Porém, o argumento geral está claro:

O que não pode caracterizar os filhos de um presbítero é a imoralidade e a rebeldia indisciplinada, se os filhos ainda estão em casa e sob a autoridade dele.[10] Paulo não está exigindo do presbítero e de seus filhos nada além do que é esperado de todo pai cristão e de seus filhos. Entretanto, somente se um homem exercita tal controle apropriadamente sobre seus filhos ele pode vir a ser um presbítero. [11]

Que Deus conceda aos pastores e presbíteros de nossas igrejas graça e sabedoria em conduzir fielmente suas igrejas e seus lares. [12]

 


1 Douglas Wilson, "O Filho do Pastor" em Credenda / Agenda, vol. 2, no. 3.

2 Alexander Strauch, Presbiterato Bíblico: Uma Chamada Urgente para Restabelecer a Liderança Bíblica na Igreja, revisado & expandido (Littleton, Col.: Lewis & Roth Publishers 1995), 229.

3 John Calvin, Comentários nas Epístolas a Timóteo, Tito e Filemon, traduzido do latim (Grand Rapids: Eerdmans 1948), 83 n. 1.

4 ibidem., 293.

5 John Stott, Guarde a Verdade: A Mensagem de 1 Timóteo e Tito, A Bíblia Fala Hoje (Downer's Grove, Ill.: InterVarsity Press 1996), 98.

6 William D. Mounce, Epístolas Pastorais, WCB (Dallas: Word 2000), 180.

7 Como Andreas Kostenberger escreve: "No contexto maior do ensino das Epístolas Pastorais, seria incomum se o autor tivesse dois padrões separados, um mais suave em 1 Tim 3:4 (obediente) e outro mais estrito em Tito 1:6 (crente). Isto cria uma tendência de ler pistos em Tito 1:6 como possuindo o sentido de "fiel" ou "obediente" de acordo com a exigência expressa em 1 Tim. 3:4." Veja http://www.biblicalfoundations.org/?p=36, junto com os tratamentos dele em Timóteo 1 e 2, Tito, no Expositor Bible Commentary, vol. 12 (rev. ed.; Zondervan 2007), pp. 606-7 e cap. 12 em Deus, Matrimônio e Família (Crossway 2004).

8 Stott, Guarde a Verdade 176.

9 Douglas Wilson, a Filho de "O Filho do Pastor, Novamente" em Credenda / Agenda, vol. 2, não. 5.

10 veja Knight, Comentário nas Epístolas Pastorais, 161, para o argumento dele de que Paulo se referindo a tekna ("filhos") que estão sob autoridade e não atingiram a maioridade.

11 ibidem., 290.

12 Quero agradecer a Ray Van Neste, Tom Schreiner e Andreas Kostenberger por terem oferecido valioso feedback em uma versão preliminar deste artigo.

Fonte: Extraído do site 9Marks.org


Tradução: Juliano Heyse


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