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Definindo o que são presbíteros

D. A. Carson

Uma transcrição ligeiramente editada de uma palestra proferida na Igreja Batista Capitol Hill

1 Timóteo 3:1-7

1 Fiel é a palavra: se alguém aspira ao episcopado, excelente obra almeja. 2  É necessário, portanto, que o bispo seja irrepreensível, esposo de uma só mulher, temperante, sóbrio, modesto, hospitaleiro, apto para ensinar; 3  não dado ao vinho, não violento, porém cordato, inimigo de contendas, não avarento; 4  e que governe bem a própria casa, criando os filhos sob disciplina, com todo o respeito 5  (pois, se alguém não sabe governar a própria casa, como cuidará da igreja de Deus?); 6  não seja neófito, para não suceder que se ensoberbeça e incorra na condenação do diabo. 7  Pelo contrário, é necessário que ele tenha bom testemunho dos de fora, a fim de não cair no opróbrio e no laço do diabo.

Tito 1:6-9

6 alguém que seja irrepreensível, marido de uma só mulher, que tenha filhos crentes que não são acusados de dissolução, nem são insubordinados. 7  Porque é indispensável que o bispo seja irrepreensível como despenseiro de Deus, não arrogante, não irascível, não dado ao vinho, nem violento, nem cobiçoso de torpe ganância; 8  antes, hospitaleiro, amigo do bem, sóbrio, justo, piedoso, que tenha domínio de si, 9  apegado à palavra fiel, que é segundo a doutrina, de modo que tenha poder tanto para exortar pelo reto ensino como para convencer os que o contradizem.

Antes de nos aprofundarmos nesses textos, eu deveria começar dizendo que nos tempos do Novo Testamento, só havia dois ofícios distintivos. Por um lado, havia presbíteros (anciãos), também chamados pastores, também chamados supervisores ("bispos" no inglês mais antigo); por outro lado, havia os diáconos. A razão para se pensar que "pastor", "presbítero" e "bispo" se referem à mesma pessoa ou ofício advém principalmente do modo com que os três aparecem juntos em tais passagens como Tito 1:5-7 e 1 Pedro 5:1-2. Esse ponto foi reconhecido há muito tempo. J. B. Lightfoot, um famoso estudioso anglicano, empreendeu uma demonstração prolongada desse ponto no seu comentário da Epístola aos Filipenses. Só a partir do segundo século é que os "bispos" (isto é, "supervisores") foram destacados para constituir um terceiro ofício.

A palavra "pastor" vem de uma raiz latina que significa "pastor de ovelhas", esse sentido no uso metafórico judeu carregava consigo implicações de autoridade e de cuidado das ovelhas, dirigindo-as, alimentando-as, protegendo-as e guiando-as. A terminologia "ancião" (presbítero) vem da sinagoga e da aldeia, e sugere maturidade e (assim se espera!) sabedoria. A palavra "supervisor" (bispo) reconhece a posição legítima de governo. Todas essas palavras são necessárias porque a tarefa é complexa e integrada.

Voltemos então aos nossos textos.

"A lista é extraordinária por não ser extraordinária. Na verdade, excluindo-se só um par de exceções, todas as qualificações listadas aqui são, em algum outro ponto do Novo Testamento, exigidas de todos os cristãos."

Esses versos nos ensinam que a característica primária do presbítero / pastor / bispo cristão é que a vida dele constantemente reflete valores cristãos: moralidade, conduta e integridade; essa é a linha mestra. De certa forma, a lista é extraordinária por não ser extraordinária. Em outras palavras, não há nada sobre Q.I. superior, carisma, personalidade poderosa ou coisas desse tipo. Espera-se que o ministro Cristão seja brando, não dado a se embebedar, e assim sucessivamente. A lista é extraordinária por não ser extraordinária. Na verdade, excluindo-se só um par de exceções, todas as qualificações listadas aqui são, em algum outro ponto do Novo Testamento, exigidas de todos os cristãos. Por exemplo, supõe-se que o presbítero seja dado a hospitalidade. Mas isso é exigido de todos os cristãos em Hebreus 13. O que isso significa, então, é que o pastor cristão tem que exemplificar na sua própria vida as virtudes e graças que são exigidas de todo o povo de Deus. Há só um par de itens aqui que não podem ser exigidos de todos os cristãos: "não seja neófito" e "apto para ensinar". Todo o resto é responsabilidade de todos os crentes, e não só dos seus pastores.

Precisamos inspecionar rapidamente os itens dessa lista. Em 1 Timóteo 3:2, Paulo começa o seu rol de qualificações declarando que os presbíteros devem ser "irrepreensíveis" - de certa forma, inculpáveis. Isso não significa que essa pessoa é perfeitamente sem pecado; há muito na Bíblia contrariando esse tipo de expectativa. O que isso significa é que não há nenhuma inconsistência ou falta óbvia que todo o mundo concorda que esta lá e serve como uma repreensão àquele homem.

Em segundo lugar, ele deve ser "esposo de uma só mulher." Em alguns aspectos essa é a mais difícil ou disputada qualificação da lista. Ela tem sido interpretada de diversas formas. Alguns pensam que significa que este homem deve ser casado - que ele deve ser um marido. Essa interpretação é altamente improvável. Está claro que Paulo não era casado, pelo menos naquele momento da vida dele, e certamente o Senhor Jesus nunca foi casado. Em 1 Coríntios 7, Paulo reconhece que há certas vantagens em ser solteiro no ministério. Eu era solteiro quando eu era pastor sênior de uma igreja na costa ocidental do Canadá, e havia todo tipo de vantagens nisso. Havia algumas desvantagens também. Mas havia algumas vantagens maravilhosas em termos das horas de que eu dispunha para visitação noturna, quando eu podia encontrar as pessoas em casa. Assim há vantagens em ser solteiro no ministério, e a condição de solteiro não deveria ser menosprezada. É altamente improvável que esse texto, então, estipule que um presbítero tenha que ser casado.

Algumas pessoas acham que esse verso sugere que o presbítero / pastor / bispo é proibido de casar-se novamente, se, por exemplo, sua primeira esposa falecer: ele deve ser o marido de só uma esposa, diria essa interpretação, não importa quanto tempo ele ou ela vivam. Mais uma vez, isso também é improvável. Em Romanos 7, Paulo insiste que não há nada desonroso em casar-se novamente, casando-se com um cônjuge cristão, depois que o primeiro faleceu. Certamente ele não dá nenhuma indicação de que tal passo é inconcebível no caso de um presbítero.

Alguns acreditam que esse verso ensina que um ancião não pode ser um divorciado que recasou. A Bíblia certamente adverte de várias formas contra o divórcio. Mas também é muito importante não fazer do divórcio o pior pecado no horizonte, o pecado imperdoável, o pecado contra o Espírito santo. Alguns tentaram impor uma proibição contra qualquer um que já tenha estado divorciado em algum momento da sua vida de tornar-se ministro do evangelho. Assim, ele poderia ter sido um assassino, e então pago a dívida dele à sociedade, saído da prisão e ter sido convertido e ter se tornado um ministro do evangelho. Mas se ele já esteve divorciado, ele não pode entrar no ministério - o que de alguma forma projeta uma imagem do divórcio como sendo o pecado imperdoável. O ponto em que o divórcio desqualifica uma pessoa para o ministério, me parece, está ligado a uma categoria que nós já discutimos: "um presbítero deve ser irrepreensível". É algo ligado à credibilidade; ou, ainda, um pouco mais adiante, "ele deve governar bem sua própria casa." Há uma preocupação quanto a alguém cuja vida rachou no seu matrimônio, e então, três meses depois, sente-se qualificado para estar de volta ao ministério. Mas alguém diria que ele se arrependeu, afinal de contas, e o evangelho é sempre algo relacionado ao perdão, não é? A Bíblia claramente tem algo mais severo a dizer do que isso. Divórcio não é o pecado maior, nem é o pecado imperdoável, contudo pode desqualificar uma pessoa para o ministério precisamente pelo tanto que destrói da credibilidade dela. Há mais que eu poderia dizer, mas o divórcio simplesmente não é o tema dessa qualificação.

Algumas pessoas interpretam esse versículo de forma que ele signifique que um ancião não deve ser um polígamo; ou seja, não pode ser alguém que se casa com duas ou mais esposas. As pessoas contestam essa interpretação dizendo que ninguém na igreja cristã teria se casado com duas ou três esposas; assim por que isso deveria ser estipulado? Além disso se discute que no primeiro século a poligamia não era algo tão comum. Por que então estabelecer essa restrição particular? Entretanto, pode ser mostrado que havia mais poligamia no primeiro século do que algumas pessoas pensam, especialmente nas classes sociais em que as pessoas se sentiam acima da regra comum. Herodes o Grande teve dez esposas. Bem, ele não as teve todas de uma vez porque ele assassinou duas delas, mas ele teve várias ao mesmo tempo. Tanto na aristocracia como em regiões fronteiriças do império - lugares como Listra - a poligamia não era de todo incomum. Se você for para a África hoje, você descobrirá em algumas tribos que a poligamia ainda não é absolutamente incomum. Quanto mais poder você tem - se você é o chefe, por exemplo - mais provável é que você tenha uma pluralidade de esposas. O número de esposas está ligado ao seu status público; é quase intrínseco ao ofício. Assim, se você for um chefe, é provável que você tenha quatro ou cinco esposas. Para começar, você tem que ser capaz de mantê-las. Em tal cultura, a poligamia parece quase ser um tipo de qualificação de liderança. Mas na igreja, é o contrário: poligamia o desqualifica para a liderança.

"...simplesmente se assume que porque essas pessoas são líderes na cultura mais ampla, então eles deveriam ser os líderes na igreja local. Às vezes as pessoas que pensam assim mais fortemente são os próprios ambiciosos jovens executivos. Tais pessoas, deve ser dito, podem ser, no devido tempo, fonte de sofrimento quase certo para a igreja local."

Suponha que uma testemunha cristã ande por uma dessas tribos hoje, e um grande número de pessoas da tribo, inclusive o chefe, se tornem cristãos. O chefe da tribo será o líder da igreja local? Não, de acordo com Paulo; isso é precisamente o que ele não pode ser. Só porque você é um chefe no mundo secular não significa que você é automaticamente indicado para ser líder na igreja local. É aí que a coisa nos afeta também. Às vezes você encontra uma dessas igrejas alto-nível cuja membresia possui muitos executivos de nível médio e até alto, e simplesmente se assume que porque essas pessoas são líderes na cultura mais ampla, então eles deveriam ser os líderes na igreja local. Às vezes as pessoas que pensam assim mais fortemente são os próprios ambiciosos jovens executivos. Tais pessoas, deve ser dito, podem ser, no devido tempo, fonte de sofrimento quase certo para a igreja local. O xis da questão é que se eles não atingirem os requisitos estabelecidos pelas Escrituras então, a despeito das suas impressionantes credenciais fora da igreja, eles não têm o direito de serem presbíteros / pastores / bispos dentro da igreja. Até onde vai o assunto de que Paulo trata aqui - o tema da poligamia - os polígamos estão simplesmente excluídos. Uma das razões é que, na Bíblia, o casamento é apresentado não só como uma instituição social, mas como um modelo, um "tipo", da relação entre o Cristo e a "sua noiva", a igreja - e Cristo não tem muitas noivas, muitas igrejas. O matrimônio é um tipo da relação entre Cristo e o seu povo, a igreja. Assim há algo a ser modelado a respeito de Cristo e da igreja, pelo marido e pela esposa, e assim por uma estrutura de matrimônio não só caracterizada por fidelidade e integridade, mas também pela monogamia. De qualquer forma, Paulo exclui o polígamo da possibilidade de ser  pastor / bispo / presbítero.

As próximas três qualificações: "temperante," "sóbrio" e "respeitável," todas têm a ver com o bom ordenamento da vida. "Temperante" traz à mente noções de pureza de mente, autoconfiança, não ser um extremista. Não tem nada a ver com a União Feminina de Temperança Cristã. Então, continuamos lendo, que o pastor deve ser auto-controlado porque, afinal de contas, como lemos em outro lugar nas pastorais, Deus não nos deu um espírito de medo, mas de poder e amor e autocontrole. A palavra "respeitável" às vezes tem conotações negativas na cultura de hoje; soa quase pomposa. Mas isso não é o que ela significa aqui. A pessoa "respeitável" atrai alguma forma de respeito.

As próximas duas qualificações na lista estão ligadas ao testemunho cristão: "hospitaleiro" e "capaz de ensinar". O pastor / presbítero / bispo cristão não deve ser um ermitão ou um monge, não deve ser alguém que sempre quer ficar isolado das pessoas. Não adianta ter um pastor que é um grande leitor de livros e um pensador disciplinado, mas que só ama a igreja em teoria, ao mesmo tempo que não suporta as pessoas. O ministério é algo ligado a tocar as vidas das pessoas.

O item "capaz de ensinar" nós voltaremos a considerar mais à frente, mas por enquanto nós podemos dizer que, pelo menos, o critério pressupõe conhecimento da verdade e de Deus, e a habilidade para comunicar tal verdade. Ocasionalmente você encontrará pessoas que são comunicadores maravilhosos, mas que não têm muito para dizer. Por outro lado, você encontra algumas pessoas que têm sólido conhecimento, mas não conseguem transmiti-lo a ninguém. Em ambos os casos, eles estão desqualificados para esse ofício. Habilidade para ensinar pressupõe conhecimento da Bíblia e do Deus da Bíblia, e a habilidade para comunicar tal conhecimento.

Ocasionalmente você encontrará pessoas que são comunicadores maravilhosos, mas que não têm muito para dizer. Por outro lado, você encontra algumas pessoas que têm sólido conhecimento, mas não conseguem transmiti-lo a ninguém. Em ambos os casos, eles estão desqualificados para esse ofício.

Então, versículo três, "não dado a muito vinho". Isso não significa só estar livre de embriaguez mas também livre da dependência. O servo de Jesus Cristo não deve ser escravo de qualquer outra coisa. Depois "nem violento, mas sim amável" - ou seja, paciente, bondoso, contido; não briguento, não contencioso. Há algumas pessoas que não só estão prontas a brigar, mas estão prontas a gostar da briga - isso não é menos verdadeiro sobre alguns de nós que vêm de um pano de fundo fundamentalista em que a nossa própria ortodoxia não é medida por contender pela fé, mas em ser contencioso sobre a fé. Nesse contexto, então, é muito importante ler uma passagem como 2 Timóteo 2:22-26:

22 Foge, outrossim, das paixões da mocidade. Segue a justiça, a fé, o amor e a paz com os que, de coração puro, invocam o Senhor. 23  E repele as questões insensatas e absurdas, pois sabes que só engendram contendas. 24  Ora, é necessário que o servo do Senhor não viva a contender, e sim deve ser brando para com todos, apto para instruir, paciente, 25  disciplinando com mansidão os que se opõem, na expectativa de que Deus lhes conceda não só o arrependimento para conhecerem plenamente a verdade, 26  mas também o retorno à sensatez, livrando-se eles dos laços do diabo, tendo sido feitos cativos por ele para cumprirem a sua vontade.

Você percebe o quadro? Alguém que não é um fracote, alguém que está se levantando entre eles e tentando ensiná-los, mas que de certa forma é alguém que não tem o seu ego tão presente que cada vez que é desafiado em qualquer ponto, perde a tranqüilidade e estoura e condena todos à perdição e depois tenta seguir com sua tarefa de reger a igreja como se nada tivesse acontecido. Não há nenhum lugar para esse tipo de atitude na vida de um presbítero; deve haver abnegação e uma firme, impassível, bondade.

Além disso, o pastor / presbítero / bispo não é um "amante do dinheiro". Jesus Cristo prometeu a todos os seus discípulos que teriam o bastante para as suas necessidades. Então os líderes da igreja têm que exibir um certo desapego a essas necessidades, porque eles estão confiando em Cristo. A pior situação concebível na igreja local acontece quando a igreja adota a atitude: "Deus, tu o manténs humilde e nós o mantemos pobre", e o ministro adota a atitude, "vou arrancar cada centavo que eu puder dessa congregação egoísta; eles não têm idéia do quanto eu faço por eles". A melhor situação acontece quando a congregação se vê na posição privilegiada de apoiar alguém generosamente no ministério de forma que ele fique livre para seguir com o trabalho do ministério, e o ministro, por sua vez, não se importa com isso - de certa forma, ele está acima de tudo isso.

"Há um certo sentido profundo em que, no ministério, você não paga alguém pelo trabalho que ele faz. (...) Na realidade, o que a igreja está fazendo é apoiar alguém de forma que ele esteja livre para o ministério."

Há um certo sentido profundo em que, no ministério, você não paga alguém pelo trabalho que ele faz. Há algumas coisas que eu fiz no ministério - alguns funerais que eu aceitei, algumas situações miseráveis em que eu entrei - que você nunca poderia me pagar o bastante para que eu fizesse. Na realidade, o que a igreja está fazendo é apoiar alguém de forma que ele esteja livre para o ministério. Nesse tipo de estrutura, você não quer vê-lo preocupado com a próxima refeição, se está vindo ou não, mas você também não quer que ele diga: "Considerando o quanto sou importante como líder desta igreja, vocês deveriam me pagar tanto". Em algum lugar ao longo da linha, a combinação entre 1 Timóteo 2 e 1 Timóteo 5 é alcançada: ele não é um amante do dinheiro, mas ele é merecedor de "dobrada honra" - e a palavra "honra" é usada freqüentemente para "pagamento" - "merecedores de dobrados honorários os presbíteros que presidem bem, com especialidade os que se afadigam na palavra e no ensino".

Então, nos versículos quatro e cinco, lemos que o presbítero / pastor / bispo tem que ser alguém "que governe bem a própria casa." O versículo cinco nos chama a atenção para a parábola dos talentos conforme contada em Mateus 25:14-30 - se você não é capaz de fazer algo na arena menor, como pode esperar fazê-lo na arena maior? Esse princípio confere uma dignidade impressionante à família cristã. Nem todos os homens são elegíveis para serem presbíteros na igreja, mas a maioria é elegível para ser presbítero na sua casa. Dentro dessa esfera as responsabilidades deles são semelhantes. Eu quero ver presbíteros na igreja conduzindo a adoração familiar, ensinando às crianças os caminhos de Deus, refletindo padrões de modelo e disciplina, já que é isso que demonstra a qualificação deles para papéis semelhantes na igreja. Falando espiritualmente, a pior família cristã é aquela com altas pretensões espirituais e baixa performance; e a melhor é aquela com baixas pretensões e alto desempenho. Digo isso por gratidão e respeito aos meus pais. Meus pais não pensavam sobre si mesmos como sendo alguma coisa. Eles pensavam em si como perdedores e fracassados em muitos aspectos, em parte porque eles viveram os anos duros de Quebec quando nada mais estava acontecendo. No entanto, não consigo me lembrar de um único dia em toda a minha vida em que meu pai não orou durante pelo menos quarenta e cinco minutos, e nós sabíamos que ele estava orando por nós e pela igreja e pelo ministério dele. Gravado em minha memória está minha mãe sentada na cozinha com a sua Bíblia aberta sobre seus joelhos. Meu pai nunca foi uma ameaça para nós por causa do seu próprio ego; ele simplesmente não funcionava nesse plano. E quando eu saí de casa, eu nunca pude desprezá-los como velhos antiquados ou hipócritas: Eu tinha sido uma testemunha viva da integridade de suas vidas.

"Nem todos os homens são elegíveis para serem presbíteros na igreja, mas a maioria é elegível para ser presbítero na sua casa."

Isso significa que os filhos de um presbítero devem ser cristãos devotos? Há uma passagem no segundo parágrafo que eu li no começo desta palestra (veja Tito 1:6-9) que é usada algumas vezes para apoiar essa visão. Eu penso que a tradução da NVI é ruim. A NVI traduz Tito 1:6 como "É preciso que o presbítero seja irrepreensível, marido de uma só mulher e tenha filhos crentes que não sejam acusados de libertinagem ou de insubmissão". Isso significa que os filhos de todo líder devem ser cristãos? E se você responder que sim, então a partir de que idade? Dois? Cinco? Dezessete? Na realidade, o termo particular que é usado aqui, "tem que acreditar", é um adjetivo que em muitos lugares é traduzido como "deve ser fiel". E na verdade, em listas de virtudes sociais do primeiro século, onde são arroladas características morais, a palavra sempre tem essa força. Eu penso que o que o texto está dizendo não é que as crianças devem ser salvas - afinal de contas, graça não é algo que corre nos genes - mas que ao fim do dia, elas devem ser fiéis, não indomáveis ou profundamente desobedientes.

O versículo não significa que os filhos dos ministros são perfeitos e sem pecado. Não significa que eles não podem fazer algumas coisas bem estúpidas e imorais. A verdadeira pergunta é, como a família está sendo conduzida? Que tipo de disciplina é imposta? Que tipo de encorajamento ocorre lá? E como essas forças se refletem no caráter, na fidelidade, das crianças? Certamente o texto não significa que quando os filhos deixaram a casa e se tornaram adultos e estão fora da esfera de autoridade de seus pais - quando eles não tem mais nenhum controle sobre os filhos - que todos eles devam ser crentes fortes e admiráveis, com nada de publicamente errado com suas vidas, ou então seu pai será desqualificado para o ministério vocacional. Até mesmo enquanto eles ainda são crianças e vivendo na casa dele, o que é exigido não é nem conversão, nem perfeição, mas o tipo de disciplina paterna que produz crianças "fiéis". Deve haver algo daquele pouco encontrado dom, o bom senso cristão, e graça, tato, disciplina e encorajamento, e às vezes um puxão de orelha e outras vezes talvez uma administração da "vara da educação" e do "assento do aprender", isso produz filhos "fiéis". Tal combinação entre moldar e disciplinar é importante porque isso também é requerido na liderança da igreja. Se você não é capaz de fazer isso em casa certamente não pode fazê-lo na igreja. Se ficar óbvio que o homem perdeu o controle dos seus filhos dependentes completamente; se as crianças têm treze anos e são os terrores do bairro; o homem é desqualificado para o ministério público na igreja. Isso é o que o texto diz.

Somos informados no verso seis, que ele "não deve ser neófito", para que não seja inchado com orgulho, fazendo com que a queda dele seja ainda maior. Promoção rápida, normalmente, significa desastre; ele cai sob a mesma condenação que o diabo; já que este elevou-se a si mesmo em orgulho contra Deus. Mas esta é, não obstante, uma categoria relativa. Por exemplo, no livro de Atos, Paulo sai pelo que hoje é o sul da Turquia e planta várias igrejas lá, e então, no retorno, ele designa presbíteros em cada lugar. Não há como esses cristãos terem sido crentes por mais que alguns meses; isso é o que a cronologia exige quando Paulo designa presbíteros em cada lugar. Seria impróprio designar tais pessoas como presbíteros na Igreja Batista Capitol Hill. Essa igreja é formada, em parte, por cristãos que são crentes há muito tempo, com muita experiência.

Eu fui criado no Canadá francês, e durante os anos difíceis, tão recentes quanto 1972, em uma população de 6,5 milhões de pessoas, havia um total de cerca de trinta e cinco igrejas evangélicas. Apenas uma ou duas delas tinham mais de trinta ou quarenta pessoas em uma manhã de domingo. Eram trabalhos pequenos, principalmente apoiados por dólares canadenses ingleses. Então, entre 1972 e 1980, essas trinta e cinco igrejas cresceram para aproximadamente quinhentas - em oito anos. Algumas dessas igrejas tinham centenas de pessoas. Eu fui pregar em uma igreja no Canadá francês e descobri que não havia uma única pessoa no local que tinha sido cristão por mais de dezoito meses. Nesse tipo de situação, os presbíteros eram as pessoas que tinham sido cristãos durante dezesseis ou dezoito meses, porque eles eram mais velhos no Senhor do que qualquer outra pessoa na igreja. Assim, naquele tipo de expansão missionária, "não neófito" significa algo relativamente diferente do que significa em uma igreja estabelecida há tempo. Ainda assim, "não neófito" é um princípio importante, mesmo que tenha que ser aplicado de diversas maneiras.

"Se você pensa que isso vai ser um passeio, vá ser astronauta, faça algo fácil na vida; mas não busque ser um pastor cristão."

Então deixem-me mencionar várias características que são tiradas de outras passagens que não são relacionadas nesta lista particular. Em 1 Timóteo 5:21 Paulo diz para Timóteo evitar, a todo custo, o favoritismo, a parcialidade. O resultado é que às vezes há um certo grau de solidão na liderança. Todos nós temos tipos favoritos de personalidades, pessoas com que nos damos bem melhor do que com outras. Mas os líderes cristãos não têm o direito de se entregar a tais preferências: liderança na igreja não deveria ser parcial, não deveria envolver favoritos. De forma mais geral, 1 Timóteo 6:11-12 diz que o presbítero cristão deve perseguir todas as virtudes religiosas. E ainda mais genericamente, em 2 Timóteo 2, 3, e 4, líderes na igreja devem esperar sérias dificuldades e persistir frente a elas, enquanto permanecem totalmente comprometidos. Se você pensa que isso vai ser um passeio, vá ser astronauta, faça algo fácil na vida; mas não busque ser um pastor cristão.

Passo agora a uma característica excepcional: "capaz de ensinar". É excepcional dentro da lista porque não pode ser exigido de todos os crentes (a não ser no sentido mais geral de que todos os cristãos "ensinam" a outros de alguma forma genérica - mas certamente não no sentido de Tiago 3:1 que especifica que não deveria haver muitos mestres na igreja, pois sabemos que eles serão julgados mais severamente). Essa é uma característica que nunca é exigida dos diáconos. Em outras palavras, um diácono pode ensinar, mas isso não é uma parte necessária do papel dele como diácono.

Talvez, de passagem, eu devesse mencionar que algumas traduções colocam a expressão grega como "ensinável" em lugar de "capaz de ensinar". Eu não gastarei tempo aqui explicando por que estou persuadido de que a segunda tradução está correta. Em vez disso limitar-me-ei a dizer duas coisas sobre essa qualificação. Primeiro, há algumas pessoas que discutem que há duas ordens de presbíteros no Novo Testamento, aqueles cuja tarefa é principalmente a administração, e aqueles cuja tarefa é principalmente ensinar. Essa distinção é inteiramente baseada em um versículo, 1 Timóteo 5:17 que diz "Devem ser considerados merecedores de dobrados honorários os presbíteros que presidem bem, com especialidade os que se afadigam na palavra e no ensino". Assim alguns discutiram que há duas ordens de presbíteros: aqueles que dirigem os negócios da igreja, e um outro grupo, os  "com especialidade" que acrescentam a isso o dom de ensinar. Minhas hesitações quanto a isso são duas.

Número um: este é o único texto no Novo Testamento que poderia ser usado para apoiar essa visão, e eu reluto em impor à consciência da igreja algo que aparentemente só é dito uma vez - não porque algo tem que ser dito muitas vezes para que seja verdade, mas porque algo tem que ser dito mais de uma vez para eu poder estar seguro de que entendi corretamente. Por exemplo, em 1 Coríntios 15, há uma referência a pessoas que foram batizadas pelos mortos. Bem, os mórmons acham que eles sabem o que isso significa, mas eu não estou tão seguro. Na verdade, ao longo da história da igreja, houve aproximadamente quarenta interpretações diferentes sobre o que essa frase significa. A multiplicidade de linhas de interpretação ocorre por vários motivos: a frase só aparece uma vez (assim não há nenhum texto paralelo para nos ajudar), há mais de uma possibilidade sintática, e ,de qualquer forma, a própria expressão é ligeiramente obscura. Eu penso que posso reduzir as opções a três, mas até mesmo se eu me aventurar a uma especulação sobre qual delas está correta, não tenho o direito de impor a minha conclusão à consciência da igreja. Assim é também com respeito a 1 Timóteo 5:17: o fato de que a expressão relevante só aparece uma única vez me faz relutar em deduzir uma estrutura eclesiástica inteira apenas desse texto. Número dois: a palavra "especialmente" dita nesse verso não se refere a uma categoria separada de presbíteros mas acentua o que todos os presbíteros têm que fazer: "esses que dirigem o trabalho da igreja, efetivamente esses que ensinam ou pregam a Palavra de Deus" - algo assim. Veja bem, no Novo Testamento, a autoridade que rege a igreja não é principalmente uma autoridade de um ofício independente; é uma autoridade que é ministrada pela Palavra. Não tenho como dar ênfase demasiada a isso. Nós não obedecemos os pastores / presbíteros / bispos porque eles são os pastores / presbíteros / bispos, porque eles têm o cargo e então eles estão "por cima", e nós estamos "por baixo" - porque eles são os administradores e portanto nós os obedecemos; e aí também há alguns deles que nos ensinam. Não é essa a idéia.

"A idéia é que a autoridade que eles exercem no ministério é precisamente a autoridade de ministrar a Palavra de Deus."

A idéia é que a autoridade que eles exercem no ministério é precisamente a autoridade de ministrar a Palavra de Deus. É por isso que, se eles reivindicam estar ensinando a Palavra de Deus, contudo estão transparentemente emprestando o apoio deles a ensinamento falso, você tem todo direito de desafiá-los, porque eles não podem se colocar acima da Palavra de Deus: eles estão sempre sob a Palavra. Mas se eles estiverem ensinando a Palavra genuinamente, então é claro que cristãos devotos perceberão que a verdadeira autoridade está na Palavra, e no Senhor da Palavra, mesmo se depois de algum tempo tais presbíteros adquirirem uma enorme quantia de credibilidade e autoridade funcional, porque eles sempre serão vistos como mestres fiéis da Palavra de Deus. Assim, a administração da autoridade na igreja não é tão amarrada ao ofício, ou meramente à manipulação de líderes administrativos, embora em qualquer organização há grande necessidade de administração e de tipos de administração. Na verdade, a fonte de autoridade é sempre a Palavra. E dessa estrutura vêm mestres que explicam e aplicam bem aquela Palavra, de forma que os crentes digam, "Sim, essa é a mente de Deus".

A segunda coisa a ser dita sobre isso é que quando você olha para todas as passagens sobre essa autoridade do ensino nas epístolas pastorais e em outros lugares, o ensino / pregação dos presbíteros está entremeado por uma extraordinária mistura de proclamação por um lado e servir de modelo por outro. Nunca é um sem o outro. Você não acha isso só nas pastorais, mas em outros textos também. Em 1 Pedro 5, Pedro escreve:

1 Rogo, pois, aos presbíteros que há entre vós, eu, presbítero como eles, e testemunha dos sofrimentos de Cristo, e ainda co-participante da glória que há de ser revelada: pastoreai o rebanho de Deus que há entre vós, não por constrangimento, mas espontaneamente, como Deus quer; nem por sórdida ganância, mas de boa vontade; nem como dominadores dos que vos foram confiados, antes, tornando-vos modelos do rebanho.

Assim você tem uma ênfase em supervisão, mas também em exemplos.

Há mais uma qualificação para o ministério vocacional que eu não ouso ignorar. As Epístolas Pastorais apresentam uma ênfase em crescimento espiritual observável nos líderes. Olhe para 1 Timóteo 4:14-16 - "Não te faças negligente para com o dom que há em ti, o qual te foi concedido mediante profecia, com a imposição das mãos do presbitério.  Medita estas coisas e nelas sê diligente, para que o teu progresso a todos seja manifesto.  Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina." Se o seu pastor não for mais sábio e um melhor pregador e mestre da Palavra daqui a cinco anos, e se ele não é melhor agora do que quando ele começou aqui há três anos e meio então, falando bem francamente, há algo errado com ele. Ele deveria estar crescendo no seu pensamento, na sua leitura, no seu entendimento, na sua habilidade em aplicar e comunicar a Bíblia. Deveríamos observar nele um crescimento aparente em santidade e uma conformidade com Cristo, isto é, na vida dele, por um lado, e na doutrina dele, por outro. Ministros não são pessoas estáticas.

"Se o seu pastor não for mais sábio e um melhor pregador e mestre da Palavra daqui a cinco anos, e se ele não é melhor agora do que quando ele começou aqui há três anos e meio então, falando bem francamente, há algo errado com ele."

É intrigante que dois outros temas do Novo Testamento às vezes estão ligados a passagens sobre líderes espirituais. Primeiro, a doxologia, o louvor a Deus; e, segundo, a escatologia, que é a antecipação do fim que mantém tudo em um certo tipo de perspectiva. Deixem-me dar-lhes uma passagem ou duas a título de exemplo. Em 1 Timóteo 6:11-16, Paulo escreve:

11  Tu, porém, ó homem de Deus, foge destas coisas; antes, segue a justiça, a piedade, a fé, o amor, a constância, a mansidão. 12  Combate o bom combate da fé. Toma posse da vida eterna, para a qual também foste chamado e de que fizeste a boa confissão perante muitas testemunhas. 13 Exorto-te, perante Deus, que preserva a vida de todas as coisas, e perante Cristo Jesus, que, diante de Pôncio Pilatos, fez a boa confissão, 14  que guardes o mandato imaculado, irrepreensível, até à manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo; 15  a qual, em suas épocas determinadas, há de ser revelada pelo bendito e único Soberano, o Rei dos reis e Senhor dos senhores; 16  o único que possui imortalidade, que habita em luz inacessível, a quem homem algum jamais viu, nem é capaz de ver. A ele honra e poder eterno. Amém!

Toda essa exortação é aquilo que se supõe que um líder deva ser. Paulo quer que Timóteo se esforce até o fim - isso é escatologia - por que o próprio Deus é absolutamente glorioso - e isso é doxologia. Esses tipos de ligações são bastante comuns: nós lemos algo sobre líderes e o como eles deveriam ser, e então os líderes são vistos, ou se vêem, à luz do retorno de Cristo e do julgamento final, e especialmente à luz da glória absoluta de Deus, sua majestade e maravilha. Outra passagem com a mesma combinação de temas é 2 Coríntios 4:7-18. Leia quando tiver tempo, e você verá por que esses temas estão unidos. O ministério não é um fim em si mesmo. O ministério está comprometido a preparar toda a igreja de Deus para o retorno de Cristo. Além disso, os ministros do evangelho de Jesus Cristo - presbíteros / pastores / bispos - não deveriam estar nessa obra para angariar elogios para si, mas para trazer glória a Deus.

Finalmente, há mais uma reflexão que eu gostaria de oferecer. Ela vem de muitas passagens do Novo Testamento, mas não pode ser extraída colocando seu dedo em qualquer um deles. Levaria quinze ou dezoito passagens para estabelecer essa reflexão com algum detalhe, mas um breve resumo pode ser útil, embora eu não possa fornecer aqui toda a evidência. No Novo Testamento, quantos presbíteros / pastores / bispos deveriam existir em cada igreja local? Essa pergunta produz respostas bastante complexas, em parte porque a terminologia de Novo Testamento não é exatamente como a nossa. Por exemplo, no Novo Testamento, a palavra "igreja" no singular é regularmente ligada à cidade. Lemos sobre a igreja em Jerusalém, a igreja em Éfeso, a igreja em Roma. Porém, a palavra "igrejas" (no plural) está ligada a unidades geográficas maiores: as igrejas na Judéia, as igrejas em Samaria, as igrejas na Ásia Menor. Hoje nós não usamos esse tipo de distinção: nós falamos das igrejas em Boston, por exemplo, ou das igrejas em Chicago. Mas no primeiro século, não só as cidades eram menores que as nossas, mas a terminologia eclesiástica era distribuída de uma forma um pouco diferente.

A igreja em Jerusalém era composta de uma "igreja" única: as denominações ainda não tinham sido inventadas. Mas apesar dos cristãos poderem, por algum tempo, reunir-se em uma local grande como o pórtico de Salomão, não demorou para que esses locais não estivessem mais disponíveis, tanto porque os cristãos se tornaram muito numerosos, como por causa da oposição virulenta. Isto significou que a única "igreja" em Jerusalém foi logo quebrada em muitos grupos nas casas. O mesmo ocorreu em Éfeso. Não havia nenhuma assembléia física, embora os cristãos falassem da "igreja" (singular) em Éfeso. Todas as pessoas da única igreja em Éfeso se reuniam em locais diferentes, em assembléias diferentes. Não demorou muito para que os cristãos se tornassem tão numerosos que não havia nenhum local satisfatório para uma reunião única. Obviamente, eles não poderiam alugar o estádio - o mesmo estádio onde, pouco tempo depois, eles seriam entregues como alimento aos leões - assim eles se reuniam em diversas casas. Como resultado o que nós chamamos de "igrejas nas casas", no mundo antigo funcionou, de algum modo, como as nossas "igrejas individuais", com a diferença de que nossas igrejas locais são freqüentemente maiores, e às vezes muito maiores, que as "igrejas nas casas" deles. Mas todas as suas "igrejas nas casas" em uma mesma cidade constituíam, na visão deles, a "igreja" daquela cidade. Como os presbíteros daquela "igreja" estavam distribuídos, é impossível dizer. Talvez igrejas nas casas que eram menores tivessem um presbítero cada; talvez igrejas nas casas com mais pessoas tivessem vários presbíteros. Nós simplesmente não sabemos.

Dessas realidades terminológicas surgiram duas ou três teorias competindo entre si. Em particular, a visão presbiteriana sustenta que todos os anciãos - os presbíteros - de uma área particular constituem um corpo, o corpo como um todo tem algum tipo de controle sobre todas as igrejas locais daquela área. Mas há outra visão, uma com que eu fico pessoalmente mais confortável. Mas para explicá-la, preciso estabelecer um quadro mais amplo.

"No Novo Testamento, uma autoridade final repousa, em muitos casos, com a congregação."

No Novo Testamento, uma autoridade final repousa, em muitos casos, com a congregação. Em 1 coríntios 5, por exemplo, há uma instância de disciplina na igreja que vai para a congregação inteira, apesar de muito poder ser instituído pelos presbíteros. Novamente, em Mateus 18, o Senhor Jesus insiste que quando as coisas chegarem a um alto nível de pressão, deve-se levar o conflito para a igreja. Leva-se o caso para a igreja - não só porque há sabedoria na igreja inteira, mas porque há uma sanção final na igreja inteira.

Na realidade, no Novo Testamento, há uma contínua tensão entre a autoridade que reside na igreja e a autoridade ligada  aos presbíteros / pastores / bispos. Há uma tensão contínua porque, falando francamente, qualquer lado pode se tornar mau. Assim, em 2 coríntios 10-13, há líderes na igreja que Paulo diz que deveriam ser expulsos da igreja. E se a igreja não executar essa disciplina, então quando ele chegar lá, na condição de apóstolo, ele entrará em ação e os removerá. Por outro lado há passagens como Hebreus 13 em que a ênfase está em obedecer aos líderes. Afinal de contas, a igreja pode ir mal como um todo, ou simplesmente estar necessitando de mais instrução e disciplina. Espera-se que os líderes assumam a responsabilidade primária. Mas, na verdade, às vezes eles também têm que ser disciplinados, assim há uma tensão corrente nesse modelo, no Novo Testamento.

"Na realidade, no Novo Testamento, há uma contínua tensão entre a autoridade que reside na igreja e a autoridade ligada  aos presbíteros / pastores / bispos. Há uma tensão contínua porque, falando francamente, qualquer lado pode se tornar mau."

Assumindo a importância dessa tensão contínua entre a autoridade dos presbíteros e a autoridade da igreja, nós nos lembramos do fato de que "igrejas" hoje variam em tamanho desde a pequena "igreja na casa" que pode ter só um presbítero / pastor / bispo, até o tipo de igreja "tamanho Jerusalém" que pode ter milhares de pessoas e muitos presbíteros. Até onde eu posso ver, não há nenhuma regra bíblica absoluta que requeira que um certo número de presbíteros seja necessário para igrejas maiores, ou que uma porcentagem da congregação deva ser formada por presbíteros. É  claro que alguém poderia discutir racionalmente que há segurança nos números; mas ainda mais racionalmente, poder-se-ia argumentar que não se deveria designar como presbítero aqueles que são inaptos. Provavelmente é correto dizer que no Novo Testamento há uma inclinação para uma pluralidade de presbíteros na igreja, mas imediatamente alguém relembra que no Novo Testamento a "igreja" local poderia ter numerosas "igrejas nas casas" ou assembléias que a compunham. Uma "igreja" grande hoje, com muitos presbíteros / pastores / bispos, pode facilmente ter muito mais cristãos do que havia em cidades inteiras no mundo antigo. Vai além do ensino claro da Bíblia argumentar que essa forma de governo da igreja é imprópria a menos que seus presbíteros / pastores / bispos estejam unidos aos de outras igrejas. De qualquer forma, o que está claro é que os presbíteros / pastores / bispos têm sob sua responsabilidade a supervisão geral, a direção, e o ensino da Palavra de Deus na assembléia local. Porém, ainda assim, a assembléia local é coletivamente responsável pelos presbíteros.

Muito mais poderia ser dito, mas essas observações sobre o que a Bíblia diz a respeito desse assunto pode servir como um ponto de partida para reflexão adicional e discussão.

 

Perguntas e Respostas

P: Se uma condição prévia para ser um pastor é ser capaz de ensinar, o que leva tantos seminários a distribuir diplomas a pessoas que não são capazes? O que quero dizer é que todos nós sentamos nas igrejas e pensamos, "rapaz, de onde veio esse cara"? Quem lhe deu esse diploma? Será que é porque eles tem medo? É dinheiro? A escola não quer perder dinheiro ou o reitor teme perder o emprego?

DC: Estou certo de que  todas essas coisas se aplicam a um ou outro caso. Por outro lado, eu penso que deve-se também dizer que, pelo menos na tradição das igrejas livres / igrejas batistas, você não progride automaticamente da graduação no seminário para a ordenação. Ou seja, um treinamento no seminário é um passo ao longo da linha, entretanto há inevitavelmente um período de testes, treinamento e aprendizado na igreja local - pode-se chamar de várias formas - antes da ordenação. Mas a ordenação é feita pela igreja. A maioria das pessoas a que você está se referindo acabou finalmente sendo ordenada por alguma igreja. Em outras palavras, há uma responsabilidade compartilhada por tê-los empurrado tão longe, já que não há nada que obrigue uma igreja a ordenar alguém só porque ele se formou em um seminário. Além disso, seminários treinam outras pessoas além de pastores. Algumas pessoas serão treinadas para outros papéis no ministério cristão (por exemplo editando, escrevendo, dissertando, aconselhando, e assim sucessivamente). Mas eu concordo com você que há necessidade em muitos seminários de se enfatizar mais como se deve ensinar bem a Palavra de Deus.

P: Onde, no Novo Testamento, encontra-se a idéia que nós vemos hoje do "pastor sênior" ou "pastor principal"?

DC: Se por "pastor sênior" você quer dizer uma categoria separada, isto é, alguém bastante diferente de "pastor", então obviamente não há nenhuma autorização no Novo Testamento para esse ofício. Mas onde você tem um grupo de presbíteros, um grupo de pastores, um grupo de bispos, então inevitavelmente, pela própria natureza do caso, alguns vão ser mais sênior que outros, ou porque eles estão na obra por mais tempo, ou porque eles são mais experientes ou conhecem mais, ou porque eles são melhores mestres da Palavra de Deus. Inevitavelmente uma discriminação funcional é feita. Isso também é verdade dentro das páginas do Novo Testamento. Por exemplo, é dito a Timóteo que encontre outros que poderão aprender os fundamentos cristãos e que possam transmiti-los a outros. Isso significa que deveria haver algum tipo de preparação ocorrendo na igreja local. Funcionalmente, então, você tem um presbítero sênior e um presbítero aprendiz. Assim não há nada intrinsecamente errado em tais distinções funcionais. Aqueles que tentam insistir em uma estrutura puramente democrática em todos os grupos de presbíteros, como se todo o mundo naquele grupo tivesse exatamente a mesma autoridade, não só negligencia os graus de competência e maturidade atestados pelo Novo Testamento, mas também esquece que em última análise a autoridade não está no indivíduo, mas na Palavra. Inevitavelmente, isso sugere que a pessoa que conhece melhor a Bíblia e que a ensina melhor provavelmente acabará tendo uma autoridade funcional aumentada, independentemente disso ser formalizado ou não. Se for formalizado, então ele será reconhecido pela igreja (usando ou não o título) como o "pastor sênior". Isso não significa que ele sabe tudo, ou que em qualquer assunto ele é invariavelmente o melhor mestre, mas em geral, em termos da experiência dele, do exemplo dele, do conhecimento bíblico dele e da sua habilidade para ensinar a Palavra de Deus a pessoa se tornará, de fato, o pastor sênior, até mesmo se ele não tiver esse título.

P: Como foi que a igreja se transformou da relativa simplicidade de divisão do Novo Testamento entre "diáconos" e "presbíteros / pastores / bispos" para o modelo com três ofícios que predomina em muitas denominações hoje (isto é, bispos [ou supervisores], pastores, diáconos)?

DC: As mudanças ocorreram por muitas razões. O primeiro passo aconteceu bem no início do segundo século. A igreja estava se expandindo tão rápido e os cristãos se mostravam contentes em abraçar muitos mestres itinerantes que andavam perambulando e que comunicavam a fé cristã a pessoas em um determinado local, então iam para outro local, e assim sucessivamente. Além disso, isso era culturalmente aceitável porque havia naqueles dias muitos "filósofos" andarilhos que ganhavam dinheiro através de seus discursos itinerantes. Mas, por fim, alguns desses pastores andarilhos provaram ser heréticos ou quase-heréticos. Alternativamente, e de forma igualmente triste, alguns que eram formalmente ortodoxos tornaram-se ambiciosos ou gananciosos. Por fim, foram impostas regras nas igrejas sobre o que deveria ser feito nessas situações.

Há um documento muito famoso datado do princípio do segundo século, alguns anos depois que último documento do Novo Testamento foi escrito, chamado Didaquê que oferece um punhado de regras sobre o que fazer. Se um mestre itinerante vem e ele quer ficar por mais de três dias, não confie nele. Se ele pedir dinheiro, não confie nele. Você pode lhe dar cama e comida, mas se ele pedir dinheiro, provavelmente é um charlatão. E acima de tudo, se ele não se une ao evangelho glorioso de nosso Jesus santificado, então não confie nele, até mesmo se ele aderir formalmente a outras estipulações.

O fato de que tais regras existiam nos dão idéia da extensão do problema. Assim, finalmente, o que aconteceu era quase previsível. Eu mesmo fui a partes do mundo onde a igreja está se expandindo muito depressa, e grande número de crentes imaturos precisam desesperadamente de ensino sério. Às vezes em uma pequena área geográfica você encontra, digamos, dez, quinze, vinte, trinta igrejas, a maioria das quais é dolorosamente mal-ensinada. Mas entre esse grupo de igrejas, pode haver duas ou três que são conduzidas por pastores que realmente são mais bem informados, melhor treinados, mais perspicazes, e com mais leitura, que a maioria dos pastores. Mais cedo ou mais tarde eles serão consultados pelos outros. Esse grupo de dois ou três pastores mais maduros logo exercerá uma influência perceptível (ainda que informal) sobre os pastores e as igrejas menos favorecidas. Quem mais protegerá essas pequenas e imaturas igrejas de mestres perigosos - ainda mais se esses mestres perigosos surgem como lobos em pele de ovelha? Podemos imaginar os líderes das igrejas menores, mais fracas, dizendo a um pregador itinerante, "Olha, eu não sei se eu deveria recebê-lo ou não. Vá ver o Pastor Jim lá em cima, tenha uma conversa com ele, e se ele disser que está tudo bem, então está tudo bem". Assim os itinerantes vão e são avaliados pelo Pastor Jim. Bem, na verdade, o Pastor Jim está exercendo agora um outro tipo de ministério de veto sobre todo mundo naquela área. Ele está se tornando um bispo no sentido do segundo século.

Assim o bispo logo passou a ser visto como aquele que definiu doutrina e de certa forma protegeu as igrejas da sua região. Não surpreende então, que já em 115 a 120 d.C., Inácio chegou ao ponto de dizer que onde está o bispo, está a igreja. No entanto não se pode imaginar ninguém dizendo esse tipo de coisa em qualquer documento do Novo Testamento. Porém, por melhores que tenham sido os motivos que estimularam esses desdobramentos, a realidade histórica incontestável é que dali em diante a igreja passou a ser lentamente contaminada com os rudimentos de uma estrutura de poder nascente que atrairia cada vez mais autoridade para si. Não é difícil de entender os desenvolvimentos posteriores que ocorreram ao longo séculos.

P: Com o ensino claro de 1 Timóteo 3 sobre quem deveriam ser os presbíteros, como as coisas se tornaram tão confusas a ponto de, muitas vezes, o pastor e a sua esposa assumirem a liderança da igreja?

DC: Essa pergunta só pode ser respondida de modo abrangente olhando para um grande número de passagens fora da esfera dessa introdução ao assunto. Em outras palavras, a resposta para sua pergunta encontra-se no tópico bíblico adjacente sobre os papéis de homens e mulheres na igreja e no lar. Até mesmo depois que fizermos tantas concessões quanto possível para as diferentes interpretações desse conjunto de textos, é muito difícil de evitar uma conclusão embaraçosa: muito freqüentemente as atuais práticas e interpretações da Bíblia dependem muito mais das posições culturais em voga, que domesticam quieta mas efetivamente a Bíblia, do que em atento e reverente estudo das Escrituras. Entretanto, esses são assuntos ligeiramente paralelos ao tópico de hoje, por isso vou deixá-los de lado.

 

Fonte: http://www.9marks.org


Tradução: Centurio

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; 2005 Bom Caminho