Bom Caminho - em busca das veredas antigas

Albert Mohler - foto

Não, eu não estou ofendido

Albert Mohler

am001.jpg (13K) - Papa Bento XVI

Vocês não estão ofendidos? Esta é a pergunta que muitos evangélicos têm escutado após a publicação de um recente documento lançado pelo Vaticano. O documento declara que a Igreja Católica Romana é a única verdadeira igreja - ou, em palavras que o Vaticano preferiria usar, a única forma institucional na qual a Igreja de Cristo subsiste.

Não, eu não estou ofendido. Em primeiro lugar, eu não estou ofendido porque este não é um assunto em que a emoção deveria ter um papel fundamental. Esta é uma pergunta teológica, e nossa resposta deveria ser teológica, não emocional. Em segundo lugar, não estou ofendido porque não estou surpreso. Ninguém que esteja familiarizado com as declarações do Magisterium Católico Romano deveria estar surpreendido por este desenvolvimento. Essas não são novidades em qualquer sentido genuíno. Só são novidades no atual contexto das declarações do Vaticano e das relações ecumênicas. Em terceiro lugar, eu não estou ofendido porque este novo documento na verdade chama atenção para os aspectos cruciais da eclesiologia, e assim oferece-nos uma oportunidade.

"O documento reivindica uma legitimidade única para a Igreja Católica Romana como a igreja estabelecida por Cristo. O documento sustenta esta identidade com uma reivindicação a sucessão apostólica, centrada no próprio papado."

O documento do Vaticano é bastante breve - só alguns parágrafos na realidade. Seu título oficial é "Respostas a Algumas Perguntas a Respeito de Certos Aspectos da Doutrina da Igreja", e foi lançado pela Congregação para a Doutrina da Fé do Vaticano no dia 29 de junho de 2007. Embora muitas fontes da mídia identificassem o documento como uma declaração papal do Papa Bento XVI, é de fato uma declaração da Congregação para a Doutrina da Fé que foi posteriormente aprovada para divulgação pelo Papa (o qual, como Cardeal Ratzinger, encabeçou esta Congregação antes de assumir o papado).

O documento reivindica uma legitimidade única para a Igreja Católica Romana como a igreja estabelecida por Cristo. O documento sustenta esta identidade com uma reivindicação a sucessão apostólica, centrada no próprio papado. Como o documento afirma, "Esta Igreja, constituída e organizada neste mundo como uma sociedade, subsiste na Igreja Católica, governada pelo sucessor de Pedro e pelos Bispos em comunhão com ele."

Para que ninguém perca o ponto, o documento reconhece então que as igrejas Ortodoxas Orientais também sustentam uma reivindicação de sucessão apostólica, e assim elas são chamadas "Igrejas" pelo Vaticano. Já as igrejas nascidas por qualquer forma a partir da Reforma - estas não são verdadeiras igrejas de forma alguma, somente "comunidades eclesiais".

Veja isto:

"De acordo com a doutrina católica, estas Comunidades não desfrutam da sucessão apostólica no sacramento das Ordens, e são, portanto, privadas de um elemento constitutivo da Igreja. Estas Comunidades eclesiais que, especificamente devido à ausência do sacerdócio sacramental, não preservaram a genuína e integral substância do Mistério Eucarístico não podem, de acordo com a doutrina católica, ser chamadas "Igrejas" no sentido adequado."

O Papa Bento já estava em maus lençóis com a mídia por causa da sua recente decisão relacionada à (limitada) reinstituição da missa em latim, completa com uma chamada para a conversão dos judeus. De qualquer forma, é pouco provável que ele seja considerado o "Ecumênico do Ano". Esta mais recente controvérsia só aumenta a impressão da mídia quanto a grandes mudanças no Vaticano sob o atual papado.

"Aqueles que têm familiaridade com o atual Papa conhecem a sua frustração com a tendência de teólogos católicos liberais e pessoas leigas em insistir que o Segundo Concílio Vaticano (conhecido popularmente como "Vaticano II") representou uma substancial mudança (à esquerda) na doutrina católica."

Houve mudanças sem dúvida. Bento é verdadeiramente um teólogo doutrinal, enquanto seu popular antecessor, o Papa João Paulo II, era mais um filósofo segundo o seu treinamento acadêmico. Aqueles que têm familiaridade com o atual Papa conhecem a sua frustração com a tendência de teólogos católicos liberais e pessoas leigas em insistir que o Segundo Concílio Vaticano (conhecido popularmente como "Vaticano II") representou uma substancial mudança (à esquerda) na doutrina católica. Não é assim, insistia o Cardeal Ratzinger quando era o cabeça da Congregação para a Defesa da Fé. Agora, como Papa, Bento está em uma posição em que pode converter seu argumento em uma política universal para a sua igreja. O Vaticano II, ele insiste, representou apenas um aprofundamento e reaplicação da inalterável doutrina católica.

Os Evangélicos deveriam apreciar a sinceridade refletida neste documento. Não há nenhum esforço aqui para confundir os assuntos. Pelo contrário, o documento é uma tentativa óbvia de registrar as coisas claramente. A Igreja Católica Romana não nega que Cristo esteja trabalhando redentivamente através de igrejas protestantes e evangélicas, mas nega que estas igrejas que negam a autoridade do papado sejam verdadeiras igrejas no sentido mais fundamental. Em outras palavras, a verdadeira igreja é aquela igreja identificada pelo reconhecimento do papado. Aquelas igrejas que negam ou não reconhecem o papado são "Comunidades eclesiais", não igrejas "no sentido adequado."

Eu aprecio a clareza do documento neste assunto. Tudo se reduz a isto: a reivindicação da Igreja Católica Romana quanto à primazia do Bispo de Roma e do Papa como o monarca universal da igreja é uma questão definitiva. Os católicos romanos e evangélicos deveriam juntos reconhecer a importância dessa reivindicação. Juntos deveríamos perceber e admitir que este é um assunto digno de produzir divisão. A Igreja católica romana está disposta a ir tão longe a ponto de afirmar que qualquer igreja que nega o papado não é uma igreja verdadeira. Evangélicos deveriam ser igualmente sinceros em afirmar que qualquer igreja definida pelas reivindicações do papado não é uma igreja verdadeira. Este não é um jogo teológico para crianças, é o reconhecimento honesto quanto à importância da questão.

"Como tanto Martinho Lutero quanto João Calvino deixaram claro, a primeira marca da verdadeira Igreja é o ministério da Palavra - a pregação do Evangelho. Os Reformadores acusaram a Igreja Católica Romana de não exibir esta marca, e assim não ser uma verdadeira Igreja."

Os Reformadores e seus herdeiros puseram suas vidas em risco para sustentar essa reivindicação. Nesta era de confusão e frouxidão teológica esquecemos freqüentemente que este era um dos assuntos definitivos da própria Reforma. Os Reformadores e a Igreja Católica Romana asseveraram suas reivindicações quanto a ser a verdadeira igreja - e ambos revelaram as suas mais essenciais convicções ao construir seus argumentos. Como tanto Martinho Lutero quanto João Calvino deixaram claro, a primeira marca da verdadeira Igreja é o ministério da Palavra - a pregação do Evangelho. Os Reformadores acusaram a Igreja Católica Romana de não exibir esta marca, e assim não ser uma verdadeira Igreja. A igreja Católica devolveu o favor, definindo a igreja em termos do papado e da autoridade magistral. Essas reivindicações não mudaram.

Também aprecio a preocupação espiritual refletida neste documento. O jogo artificial e mortalmente perigoso da confusão ecumênica obscureceu assuntos de grande preocupação para nossas almas. Eu verdadeiramente acredito que o Papa Bento e a Congregação para a Doutrina da Fé estão preocupados com nossas almas evangélicas e nossas congregações evangélicas. O Papa Bento não está jogando um jogo. Ele não está afirmando uma reivindicação à primazia no pátio de recreio. Ele, juntamente com o Magisterium da sua igreja, acredita que as igrejas protestantes são gravemente deficientes e que nossas almas estão em perigo. A sua teologia sacramental tem um grande papel nesta preocupação, porque ele crê e ensina que uma igreja sem submissão ao papado não tem nenhuma eficácia garantida para os seus sacramentos. (A propósito, este ponto explica porque igrejas protestantes que reivindicam uma teologia sacramental preocupam-se mais com esta declaração do Vaticano. Ela nega a validade básica dos sacramentos deles.)

"É claro que eu estou convencido de que ele não está certo: não está certo quanto ao papado, nem quanto aos sacramentos, nem quanto ao sacerdócio, nem quanto ao Evangelho, nem quanto à igreja."

Eu verdadeiramente aprecio a preocupação do Papa. Se ele estiver certo, nós estamos arriscando nossas almas e as almas dos membros das nossas igrejas. É claro que eu estou convencido de que ele não está certo: não está certo quanto ao papado, nem quanto aos sacramentos, nem quanto ao sacerdócio, nem quanto ao Evangelho, nem quanto à igreja.

A Igreja Católica Romana acredita que nós estamos em perigo espiritual por nos excluirmos teimosa e desobedientemente da submissão às suas reivindicações universais e ao seu papado. Os Evangélicos deveriam estar preocupados porque os católicos estão em perigo espiritual pela submissão a estas mesmas reivindicações. Os dois lados entendem o que está em jogo.

O Rev. Mark Hanson, bispo presidente da Igreja Luterana Evangélica na América, respondeu à imprensa dizendo que as "reivindicações exclusivas" do Vaticano são “preocupantes”. Ele também disse que o que pode ter sido feito “para esclarecer pode ter causado dor”.

Eu deixarei o Bispo Hanson explicar a dor dele. Eu não vejo esta nova declaração do Vaticano como uma inovação ou um insulto. Eu a vejo como um esclarecimento e uma útil demarcação dos problemas que estão em jogo.

Eu aprecio a sinceridade da Igreja Católica Romana neste assunto, e eu acredito que cristãos evangélicos, com o mesmo respeito e clareza, deveriam responder da mesma forma. Este é um momento para ser respeitosamente sincero - não um tempo para ficar ofendido.

Fonte: Publicado em www.albertmohler.com

Tradução: Juliano Heyse (centurio)


Fale conosco: mail@bomcaminho.com.

; 2008 Bom Caminho